Um homem à frente de seu tempo
O sistema de Metternich que vigorava na Europa após o Congresso de Viena em 1815 visava o equilíbrio europeu e a legitimidade, defendendo a supressão de movimentos liberais. Esse sistema não condizia com os interesses do Primeiro Ministro da Prússia, Otto von Bismarck, que acreditava que o interesse de sua nação se sobrepunha a qualquer julgamentos morais, contrariamente à ideologia do sistema de Metternich e da Santa Aliança. Em relação à legitimidade, acreditava que a própria política fornecia a legitimidade dos atos realizados. Essa era a Realpolitik, que seria equivalente à raison d’etat de Richelieu.
Bismarck possuía um grande interesse na unificação dos países germânicos. Além disso, acreditava que a Prússia já era um país forte o suficiente para se desligar da Santa Aliança e assumir uma posição de liderança da unificação alemã, pois não necessitava mais do apoio da Áustria. Daí o desinteresse de Bismarck pelo sistema de Metternich, que havia forjado uma Santa Aliança entre a Prússia, Rússia e Áustria, que consistia em uma de suas bases. Ele via na Prússia um aliado necessário à unificação; na Áustria, um obstáculo às suas pretensões políticas, uma vez que essa visava um equilíbrio, não tendo, portanto, nenhum interesse em uma unificação germânica. Para levar à frente seu projeto de unificação, Bismarck consegue manipular as potências de forma a realizar seus projetos.
Em 1864, ocorreu a Guerra dos Ducados, na qual a Áustria e a Prússia se uniram para derrotar a Dinamarca e conquistar os ducados de Holstein e Schleswig. Ao fim da guerra, ficou estabelecido que cada potência vencedora ficaria com um ducado. Bismarck, representando a Prússia, defende que os dois ducados deveriam ficar com a Prússia. Isso culmina na declaração de guerra da Áustria à Prússia em 1866. A Guerra Austro-Prussiana durou apenas seis semanas, surpreendendo a Áustria, que foi derrotada, e que havia subestimado o poderio da Prússia. Bismarck confiava no potencial na Prússia, e agiu de forma a enfraquecer a Áustria nessa guerra, que saiu derrotada. Ao morrer o herdeiro da Espanha, Bismarck aponta para o trono um prussiano. Nesse momento, Napoleão III, da França, se vê extremamente ameaçado por motivos geopolíticos, pois queria evitar estar localizado entre dois territórios de influência prussiana. Bismarck consegue autorização para redigir um relatório em resposta à essa preocupação, o qual manipulou de forma a ser essencial para a declaração de guerra feita por Napoleão III à Prússia. A Prússia venceu com facilidade a Guerra Franco-Prussiana, que durou de 1870 a 1871. Foi estabelecida uma República na França que foi o primeiro governo socialista, que foi chamado Comuna de Paris.
Todas essas guerras serviram ao interesse de Bismarck; sua própria realização contou com a contribuição desse, e essas guerras contribuíram para o enfraquecimento da Áustria como potência, ao participar de guerras em vão, e também para o fortalecimento da Prússia e sua afirmação como potência. As ações de Bismarck nesse contexto provam sua fundamental contribuição para esse novo perfil europeu que deu início a uma nova balança de poder na Europa, da qual a Alemanha posteriormente participaria como potência, e pôs fim ao sistema de Metternich e seus valores morais, abrindo espaço para a Realpolitik de Bismarck. Em 1871 ocorreu a unificação final da Alemanha, conforme Bismarck desejava: com o rei da Prússia sendo coroado o imperador da Alemanha na Sala dos Espelhos, no Palácio de Versalhes.

1 Comments:
Prezada Verônica
O trabalho está bastante interessante, gostei da sua comparação entre Richelieu e Bismarck, ambos eram realmente pragmáticos e,também não consigo pensar em humilhação maior para os franceses do que a coroação de Guilherme II em Versailhes.
Você poderia ainda ter mencionado como a Inglaterra via essa emergência da Alemanha como potência, por exemplo.
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